O Mundial de futebol na versão "bazuka"
O cenário não é o mais favorável: estamos a tentar sair de uma pandemia (ainda não saímos), apanhámos uma guerra em plena Europa, e para colocar a "cereja em cima do bolo", uma inflação galopante e uma crise económica no virar da esquina! Mas nem tudo está perdido, vai começar o futebol!

Não vou escrever sobre os inúmeros problemas relacionados com a escolha do país (Catar), sobre a mais que provável teia de corrupção que originou essa escolha, a crise humanitária e social que nasceu da construção dos estádios de futebol, e muito menos sobre as diferenças democráticas/religiosas entre Portugal e o Catar. Não tenho essa capacidade nem domino tanto a hipocrisia ou a ironia do mundo do futebol.
Quero escrever sobre a nossa Selecção, a minha paixão com a equipa das quinas desde os meados da década de 80, o Euro 84, o jogo Portugal-Roménia, o golo de Néné aos 81 minutos saído do banco de suplentes, e a enorme festa que todos fizemos em casa dos meus pais. Eu tinha nove anos, e enquanto acompanhava o desenrolar do jogo, brincava com os meus recortes de jornal, reforçados com fita-cola, e tentava imitar os craques da bola. Era o meu "Subbuteo" dos pobres, mas para mim era o melhor brinquedo de sempre!

Já o campeonato do Mundo de 1986 passou completamente ao lado, lembro-me de ver o golo de Carlos Manuel que garantiu o apuramento, mas depois todo o caso Saltillo não deixou memórias na minha juventude, tinha onze anos. Aqui começou a pior fase da equipa das quinas, Portugal tinha acabado de entrar na CEE, mas ainda existia muito ressentimento com a antiga ditadura. Curiosamente, em 1987 o Futebol Clube do Porto vence a Taça dos Campeões Europeus, e o Benfica perde duas finais da mesma competição no anos seguintes (1988 e 1990). Mas a nível de Selecção A, Portugal falha as qualificações para o Euro 88, Mundial 90, Euro 92 e Mundial 94.
Mas nem tudo era mau, no ano de 1989 Portugal sagrou-se campeão de mundo sub-20, em Riade, na Arábia Saudita (também um país muçulmano) e em1991 voltou a repetir a proeza em Lisboa. Estava a nascer uma nova geração, e aos poucos renascia o fulgor das massas no apoio aos jogadores nacionais.
Em 1995 entra em vigor a Lei Bosman, que iria permitir a livre circulação de jogadores da União Europeia no espaço comunitário. Até a essa data, foram raros os jogadores que tiveram oportunidade de evoluir nos principais campeonatos. De repente vem à memória nomes como Chalana, Gomes, Futre ou Rui Barros. Por exemplo na série A só eram permitidos três jogadores não-italianos, e com as novas regras, começa uma migração de jogadores como Paulo Sousa (Juventus), Rui Costa (Florentina), Fernando Couto (Parma), e Figo (Barcelona) para o campeonato espanhol.

De volta às grandes competições, o povo lusitano vibrou com as vitórias no Euro 96 de Inglaterra, a nossa Selecção era um misto de experiência com a juventude dos sub-20, sofremos todos com aquele chapéu de Karel Poborski, mas o casamento entre Portugal e a Selecção ainda não tinha sido consumado. Tal só viria a acontecer no século seguinte, depois de falhar novamente uma competição, neste caso o Mundial 98.
Finalmente o momento de catarse entre os portugueses e a Seleção de todos nós, o Euro 2000 e o Euro 2004. Pelo meio ainda tivemos um novo Saltillo no polémico Mundial de 2002, mas para fim foi nos fantásticos Portugal-Inglaterra e Portugal-França do Euro 2000 que sofri e chorei novamente como um português, e ainda hoje estou em negação face ao penalti cometido por Abel Xavier. No Euro 2004, realizado em Portugal, vi um fim de ciclo, o fim de uma geração dourada, o aparecimento de novos jogadores, a base do Futebol Clube Porto campeão europeu, e um jovem prodígio chamado...Cristiano Ronaldo. E mais uma vez chorei com o golo de Rui Costa frente à Inglaterra. Sempre foi o meu favorito. E mais uma vez na final. Por Portugal.
Dia 24 de Novembro de 2022, às 16:00 horas, vou voltar a vibrar com a nossa Selecção, trinta e oito anos depois daquele Portugal-Roménia que fez um pais interior sonhar, e mais uma vez, vou estar do lado daqueles que vão representar dez milhões de pessoas. Não é a Selecção de um só jogador, não é a Selecção de um só treinador, clube ou empresário. Aqui não há espaço para clubites, aqui só existe Portugal. Não existe separação se o jogador nasceu na Suíça, no Brasil ou na Sé do Porto. Somos todos portugueses!
A vida fora das 4 linhas não está fácil para ninguém, existe uma guerra a decorrer, uma pandemia a aumentar, e uma crise economia generalizada. Mas enquanto não chega a tal aguardada "bazuka" financeira, espero sinceramente que este Mundial tão polémico sirva de "bazuka" para a alma dos portugueses, que estamos a precisar e tanto de boas noticias!
E como português e apoiante incondicional da nossa Selecção, gostaria de ouvir da parte dos nossos atletas e da nossa equipa técnica, que sim, somos candidatos a vencer este Mundial, porque temos connosco o melhor jogador do Mundo, Cristiano Ronaldo!
Tal como diria o José Esteves, mal o esférico comece a rolar pela erva, já ninguém quer saber do regime político, dos crimes contra os direitos humanos, da discriminação sexual...só queremos que a bola entre! Força Portugal!!

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