Cinema em traches "Bem Bom"

Ontem foi dia de sessão no cinema. Fomos ver o filme "Bem Bom", de 2021 realizado por Patrícia Sequeira.


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O filme conta as aventuras e desventuras dos elemento das "Doce", desde a sua formação em 1979 até à vitória no Festival da Canção e respectiva participação no Festival de Eurovisão em 1982. Praticamente não conhecia o elenco do filme, o "casting" foi muito bem conseguido, as parecenças são notórias,  e as actrizes/actores personagens principais conseguirem sem excepção "vestir" as personagens principais. 


Nasci em 1975, por isso não tenho memórias claras deste furação que assolou Portugal no inicio da década de oitenta, por isso gostei muito de ver este filme. Claro que não consegue fugir a alguns "clichés" dentro do género biográfico-musical. Vamos passar pela fase de captação do talento, as clivagens entre elementos do grupo, os insucessos, as potencias crises e saídas do grupo, a questão financeira, as digressões num País ainda sem grandes acessos rodoviários, algo que todas as bandas desta década passaram e sofreram, não tenho duvida! 


Mas o filme consegue crescer dentro do género musical...é um retrato fiel do Portugal dos anos oitenta, antes da CEE, pós-25 Abril e após décadas de ditadura. Existe uma frase fantástica que resume bem esse ambiente, penso num diálogo da personagem Fá "o Festival é a cores, mas o júri ainda é a preto-e-branco"! Estava a referir-se ao Festival da Canção de 1980, a primeira vez que a RTP transmitiu imagens a cores. Com letras provocantes, com guarda-roupa reduzido e tantos corpo à mostra, nem sei como não foram presas por atentado ao pudor! Em 1983, por causa do famigerado filme "Pato com Laranja", o Presidente do Conselho de Administração da RTP, João Palma-Ferreira, foi "obrigado" a demitir-se...por causa da exibição de um filme que agora tem a classificação etária de "maiores de 12 anos"! Era este o Portugal das "Doce"!


Num país ainda tão fechado, com mentalidades tão retrogradas, o sucesso das "Doce" ainda ganha mais impacto, mais relevo. O timing para o lançamento deste filme não poderia ser melhor, numa década marcada pela igualdade, o "women's empowerment ", e a defesa das minorias, podemos observar na sala de cinema a força que aquelas "super-mulheres" tiveram que ter para construir uma carreira de sucesso.


Já passaram praticamente quarenta anos desde estes acontecimentos, mas em alguns aspectos o País continua igual. Já não fumamos tanto como na década de oitenta :) (no filme devem ter sido consumidos vários maços de tabaco) mas tal como é referido pela personagem de José Carlos, ainda temos um País a duas velocidades, que tanto tempo depois, ainda é acusado de ser machista, racista, e homofóbico, para disfarçar as nossas vidas insignificantes. Neste aspecto, ainda precisámos de crescer muito! Somos tão grandes como povo, mas ao mesmo tempo conseguimos ser tão mesquinhos!


Resumindo, um bom filme, dentro do tema biográfico-musical, mas que consegue ser imperdível ao reconstruir uma sociedade portuguesa jovem pós-ditadura, com todos os seus defeitos e excessos. No mesmo dia que morreu Otelo Saraiva de Carvalho, um dos responsáveis pelo 25 de Abril, e que sem ele nunca poderia ter existido um grupo como as "Doce". E que grande mulheres foram as "Doce"! 


 



 


 


 

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