O pecado de André Villas Boas
Esta semana foi noticia um comentário do treinador português André Villas Boas sobre a rivalidade no futebol, e como os adeptos reagem aos resultados dos seus principais rivais. Tema controverso, vou tentar deixar aqui a minha (longa) opinião.

Desde já gostaria de afirmar que simpatizo com o André Villas Boas. É uma personagem simpática, quem já o conheceu garante que é uma personalidade acessível, sem manias, e bastante disponível para os fãs.Parece boa pessoa. Ainda por cima é portuense, e como vim a descobrir mais tarde, fã dos jogos de simulação futebolística como Championship Manager ou Football Manager, como podem confirmar neste artigo. E finalmente, porque foi o mentor de uma das grandes equipas portuguesas deste novo milénio, o Futebol Clube do Porto da época 2003-2004, que atropelou tudo e todos, inclusive o meu Benfica da era Jorge Jesus.
«Se assistir a um jogo do Benfica na final de uma prova europeia, quero que perca. Tudo depende das pessoas, cada um tem a sua opinião. Para mim, é melhor ser realista do que hipócrita. Se o Benfica ganhar uma competição europeia fico furioso, por exemplo». Esta foi a declaração que André VB proferiu, para tentar explicar a rivalidade entre a equipa de Marselha e a equipa do PSG de Paris. Pouco depois em Portugal começaram a surgir vários tipos de reacções, algumas a apoiar mas muitas a criticar a postura do treinador português face a um clube nacional.
Para fundamentar a minha opinião, vou ter de recuar ao longínquo ano de 1984...é a minha primeira memória de um jogo de futebol, o Portugal-Roménia, que vencemos por 1-0 com um golo de Néné aos 81 minutos. Portugal tinha empatado com a Alemanha e com a Espanha, e necessitava de vencer para passar a fase de grupos. Em casa dos meus pais foi uma enorme festa. Depois acabámos por perder com a França de Platini, mas este golo de Néné ficou tão impresso nos meus apenas nove anos, que ainda hoje é marcante. Não tinha clube, não acompanhava o futebol, para mim Portugal era tudo.

A minha segunda grande memória futebolística aconteceu em 1987...final da Taça dos Campeões Europeus...não existia a Sportv, TV Cabo ou Internet...o jogo deu em directo na RTP 1...o meu pai é benfiquista/salgueirista, eu ainda não tinha clube, mas naquela noite, toda a casa estava a puxar pelo clube português. Estávamos a perder por 0-1, mas o FCP estava a crescer e a acreditar na reviravolta...lembro-me de uma expressão do comentador da RTP "Agua mole em pedra dura, tanto bate...". O Futebol Clube do Porto venceu por 2-1, e toda a família foi festejar para os Aliados, foi uma grande noite. Fomos nós, os portugueses, que vencemos os outros, os alemães. Tudo parecia certo.

Entretanto vou crescendo e começando a gostar mais de futebol...a minha irmã mais velha ainda hoje é portista, eu acabei por ser do Benfica. Por um lado por influência de ouvir e sofrer com o meu pai os relatos dos jogos na rádio, por outro por não gostar de discursos extremistas. Pinto da Costa era a grande referência do Porto e do Norte do País, Portugal tinha acabado de entrar na CEE mas ainda existia muito centralismo, muitas lutas entre Porto e Lisboa, até algum fanatismo e posições extremadas. O Futebol Clube do Porto já era um grande clube, mas adoptava um discurso de " se não és portista, é porque estás contra nós" e "contra tudo e contra todos". Como praticante de basquetebol federado, eu acreditava no respeito pelos rivais, e não em inimigos, querer ganhar sim, mas pela nossa equipa, e não contra ninguém. Aliás o lema da minha equipa (Sporting Clube Vasco da Gama) era mesmo esse "Um por todos,e todos pelo Vasco"! Ainda hoje penso assim!
Conheço muitos benfiquistas e sportinguistas do Norte que por viverem cá no Norte acabam por ter uma visão e um discurso menos extremista. Não é uma regra, mas penso que um portista do Porto é tão fanático que um benfiquista de Lisboa...já escrevi sobre isto aqui, mas foi mesmo esse extremar de posições, "a cegueira" clubística, que não sentia tão forte entre benfiquistas do Norte, que ainda hoje sinto, que me fez escolher o Benfica e que ainda hoje sinto ser a escolha mais acertada para a minha maneira de ser. Ninguém consegue ser imparcial na sua paixão, mas não gosto de "palas" nem filtros coloridos.
O Futebol Clube de Porto teve o mérito e a sorte de vencer a grande maioria das finais...contabilizei onze finais internacionais, onde o Porto venceu sete delas, apenas perdendo três Supertaças Europeias e uma Taça das Taças frente à Juventus em 1984. Já o Benfica tem 12 presenças em finais internacionais, só vencendo duas.

Sempre apoiei as equipas portuguesas nas competições internacionais, já não tenho a capacidade de abstracção para ir festejar para a rua, mas fico contente com as conquistas alheias. Não sou capaz de festejar golos de equipas estrangeiras contra o Porto ou o Sporting, o habitual é mesmo ficar indiferente. Ou quando as nossas equipas são humilhadas na Europa, o sentimento que sinto é tristeza e vergonha. Por exemplo em 2010/2011 tivemos a sorte de ter duas equipas portuguesas na final da Liga Europa...aí tive de torcer pelo Braga, não sou hipócrita para dizer o contrário, mas até aí o meu clube perdeu. Recentemente em 2019 estive a "puxar" pela vitória do Porto frente ao Chelsea na UEFA Youth League. Internamente, o Futebol Clube do Porto poderia perder sempre por sete a zero que eu até dormiria melhor, não consigo fazer o mesmo quando lutam a representar Portugal e os portugueses contra estrangeiros. Sempre senti isto, até nos Jogos sem Fronteiras. Quem chorou a ver a Rosa Mota a cortar aquela meta consegue compreender.
O texto já vai longo, isto tudo para dizer que compreendo a afirmação de André Villas Boas e não consigo ficar chateado/indignado com ele. Não somos todos iguais, 90% dos meus amigos e familiares são portistas, e acredito que todos responderiam da mesma forma. Acho que como treinador poderia ter "despido" por segundos a camisola de adepto e respondido de uma forma mais vaga, mas não sendo hipócrita. É a minha opinião. Alguns dizem que um dia André Villas Boas pretende ser presidente do Futebol Clube do Porto. Será que já está em campanha?
Habitualmente, também gosto que as equipas portuguesas ganhem com as estrangeiras.
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